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ANA LÚCIA NOVAES
BRASIL - DISTRITO FEDERAL
NOVAES, Ana Lúcia. Fragmentos da Poesia. Brasília, Editora Rumos, 1994. 100 p.
Prefácio
(João Luz Lafetá)
A adolescente escreve quando está sufocado pelo muito de seus sentimentos. A flor, o riso e a lágrima, o encontro com o outro, a confiança no futuro, o sentimento de si mesmo — qualquer desses grandes temas (que o leitor encontrará nas primeiras páginas de Fragmentos de Poesia) pode ocupar-lhe a alma, apertar-lhe o peito e exigir expressão. E talvez nasça daí o poema, da energia de afetos represados que buscam o conduto mais ou menos flexível da linguagem. A dor e o deslumbramento, o temor e a esperança, aquela coisa vaga que não-se-sabe-o-que-significa viram música de palavras, ritmos, rimas, imagens.
O estudo da poesia é comum a todas as pessoas. Poucas, entretanto, são capazes de conduzir com felicidade o fluxo afetivo à palavra lançada no papel. Parece que isso requer um tipo de sensibilidade peculiar, atenta para os movimentos interiores e, também, para os igualmente misteriosos movimentos da expressão verbal.
Ana Lúcia Novaes sem dúvida possui esta dupla inclinação, e isto atestam seus poemas aqui reunidos. Escritos, em quase total maioria, quando a autora ainda andava na primeiríssima juventude, são composições simples, delicadas e sensíveis. Falam das coisas que nascem do contato, às vezes dolorido mas sempre confiante, entre o espírito e as arestas do mundo:
Então me curvo,
limpo a poeira,
sopro as cinzas
e desempato o elo;
me vejo em você
e acordo real.
(“Da poesia à construção!)
Assim é o movimento: da poesia à construção o adolescente se mira, mira os outros, mira o mundo. Acordo real, isto é, reconhece na objetividade do poema o seu mar interior (ver “Mergulho no mar a sua identidade sempre recomeçada. E com isso ganha confiança em si e na vida.
Esta é lição dos fragmentos poéticos de Ana Lúcia Novaes; uma doce confiança no recomeçar da vida.
Tanto melhor. Se no cotidiano a poesia vale quase nada, pelo menos no pequeno intervalo deste livro ela terá uma função bonita — mostrar-nos como se fixa uma esperança.
“O riso e a lágrima”
0 riso e a lágrima,
o dono e o mendigo,
o mundo que ri,
e o mundo que chora.
A criança leve,
a rosa e o cravo,
o bosque e o córrego,
a felicidade azul...
A folha da árvore,
o pássaro da colina...
O padre que reza...
O mar e os peixes,
a festa e o doce,
e a frase:
—“Sorria, você é jovem!”
O menino que morreu,
o prédio caído,
a injustiças, a ingratidão,
e o amor só.
A prostituta e a pedra,
o pecado, a miséria,
a do e o crime.
A guerra e a bomba.
O subdesenvolvimento
e a cadeira de rodas...
O mal,
e o triste...
0 mundo sorria no tempo das flores...
E chora, hoje, seu tempo de guerra,
que outrora sorrira.
Eu
Acalmo,
leio,
escrevo,
sorrio,
durmo.
E não de prosto
ao vento noturno.
Introspeccção,
carinho da solidão.
Sentimento opaco não é.
É firme na cor,
É radio de calor,
quando o frio está a se anunciar.
Virtude, piedade, aptidão.
Que palavra não conseguir vitoriar,
nem o sorriso se expressar.
Introspecção
sensação.
Último querer,
o ser sem poder,
à beira do se fazer.
Coração viva em seu aprender,
só é feliz quem amor para ser.
*
Página publicada em 2026.
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